
Não gosto desta palavra, Solidariedade. Prefiro chamar-lhe acção benemérita momentânea ou descargo de consciência extemporâneo. Mas isso sou eu, que não gosto de ser solidário a tempo inteiro. Sou apenas em algumas alturas, ocasionalmente, e como pretexto para um encontro com a malta, uma patuscada, etc. Depois, viro as costas e volto à minha vidinha monótona e egoísta de sempre. Gostava de ser diferente eu sei, e ser solidário todos os dias, every day in every moment, em todos os momentos e situações, situeixôn, mas não consigo. I’m only human, sou apenas humano, caroço, tenham piedade.
Nos outros também não acredito, que já verifiquei serem "farinha do mesmo saco", havendo outros, que utilizam o movimento solidário para "esquemas" de todos os tipos, sendo o beneficio próprio e o protagonismo, o mais evidente.
Escrevo este breve pensamento ignóbil, por três razões. A primeira, obviamente, por não gostar dessa palavra, solidariedade, a outra, por não ter nada que fazer, e a outra ainda, por ser véspera de um acontecimento solidário motário, organizado aí por uns rapazes do meu circulo de amizades. Não refiro o nome para não ser mal interpretado.
Por outro lado, se alguém chegar a interpretar isto, quero aqui afirmar publicamente, que não se trata duma critica ao referido evento, apenas me lembrei dele, para fazer uma introspecção interior, no sentido de interiorizar a questão, e chegar à conclusão que nada valho, que frequentemente sou hipócrita, e que em nada contribuo para termos um mundo melhor, mais "humano". Não basta ser católico e bater com a mão no peito numa qualquer missa, aliás coisa que nem isso sou. Sou ateu e/ou agnóstico, não sei bem, ainda procuro a resposta. O que sei bem, é que sou um sujeito "solidário"(salvo seja), às vezes, ou nem sempre, quando me dá jeito, e quando retiro dividendos de alguma espécie. Mas isso, sou eu....
Eu sei, eu sei, com este meu feitio estragado e fora de prazo, dificilmente conseguirei granjear amigos para "contar história", mas esta, é uma realidade a que já me vou capacitando.
O inferno será a minha "benção" e lá está, à minha espera.
See you in Hell motherfuckers?
Ainda por falar em solidariedade, dei com esta perola imensa de um grande poeta portugês:
"Toda a gente critica o telemóvel do vizinho
Mas no fundo toda a gente queria ter um igualzinho
Toda a gente grita: todos diferentes todos iguais!
Mas se calhar há uns quantos bacanos a mais
Toda a gente quer ser solidária
Mas na hora da verdade toda a gente desaparece da área
Toda a gente quer ser muito moderna
Mas a tacanhez essa há-de ser eterna
Toda a gente quer fazer algo de original
Acabando por copiar aquilo que acham original
Toda a gente repara que acabo duas frases da mesma maneira (se for esse o caso toda a gente caiu na ratoeira)
Apenas quero confirmar se estou a receber a devida atenção
Da parte de toda a gente que ouve essa canção
Toda a gente precisa de parar e relaxar um bocado
E eu, como toda a gente, já ‘tou stressado
Pego no microfone e faço disso o meu talento
Por fora, por dentro, mostrando o meu rebento
Superficial, composto, directo e indirecto
Tá-se cool e tá-se bem
Entrega-te ao meu som é agora o que convém
Toda a gente critica
Toda a gente tem muita pica,
Mas é na mesa do café que toda a acção fica,
Não há dinheiro que pague este sozinho…
Manda mas é vir mais um cafézinho
Toda a gente até compra camisa
Mas dessa treta ao fim ao cabo já ninguém precisa
Toda a gente fala da situação em Timor
Muitos para ganharem algo, e muito poucos por amor
Há quem costume falar de revolução
Mas a revolução não vai ser transmitida na televisão
Ela tem que acontecer dentro de cada um
Caso contrário nunca chegaremos a lugar algum
Há quem queira resolver os problemas do mundo inteiro
De uma só vez, confiante, tal e qual um bom escuteiro
Mas enquanto se perseguem tão nobres ideais
Esquecemo-nos de limpar os nossos quintais
Tentamos combater todos os males da terra
Quando afinal é na nossa casa que começa a guerra
Toda a gente devia parar de falar olhar para dentro e agir ..."